Família, boa ou ruim, nunca sai de nossas vidas

Numa definição geral de família pode-se dizer que é uma unidade básica da sociedade formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afetivos. Etimologicamente, família vem do latim famulus, um lugar para servir, que serve. A família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante gerações.

Dentro dessa definição, segundo alguns cientistas sociais, há três tipos básicos de família: a tradicional, a nuclear e a pós-moderna.

A família tradicional era aquela geralmente numerosa, centrada na autoridade do patriarca, mais comum até a primeira metade do século XX. Eram considerados “familiares” não só pais e filhos, mas todo o entorno familiar (avós, tios, primos, etc.), e as relações eram baseadas nos conceitos morais e autoritários da época.

A família nuclear é formada por pai, mãe e filhos, e não está centrada na autoridade patriarcal.

A família pós-moderna se constitui dos mais diversos tipos de arranjo como, por exemplo, a monoparentalidade, ou seja, a existência de apenas um genitor.

Nas mais diversas maneiras de formar uma família observamos não só a estrutura, mas o modo como seus membros se relacionam e como lidam com as semelhanças e diferenças entre eles.

Afirmar categoricamente que família é a melhor coisa que existe demonstra um pensamento mais comprometido com a valoração da instituição família que com a qualidade dos seus laços e a autonomia dos seus membros.

Parece, entretanto, ser de concordância geral que não existe instituição tão poderosa e influente quanto a família − tão poderosa que, seja ela boa ou ruim, equilibrada ou maluca, presente ou ausente, estará sempre em nossas reflexões, em nossas decisões e na forma como transitamos e vivemos a vida.

Algumas pessoas, provavelmente por experiências nem sempre muito gratificantes, preferem ter a família mais tempo nos porta-retratos. Não fazem questão de ter ao seu lado a família de origem. Afirmam que sua família são os amigos eleitos ou, em alguns casos, apenas a família nuclear, aquela criada a partir do casamento. O mais curioso é que, seja nas famílias criadas a partir dos amigos ou na vida adulta, observamos padrões de comportamento muito próximos aos vividos pela família de origem.

Pessoas que pertençam a famílias ausentes, confusas ou mesmo que abandonam seus descendentes terão delas as referências no momento em que decidem (ou não) formar uma nova família. Modos de ser, de estar, de vestir, de comer e de ser pai ou mãe são marcados por esse grupo que foi − boa ou má − a primeira referência de prática de convivência humana, de amor e de vida em grupo. Por isso a família é uma instituição tão poderosa e que, provavelmente, sobreviverá aos tempos, mesmo ganhando novas configurações.

Mas o que será que nos faz estar ligados a nossa família? Laços sanguíneos, sobrenomes, obrigações? Nada é a priori. Família, casamento, filhos e pais ganham significados à medida que vivenciamos cada um desses aspectos numa dinâmica relacional. Por isso esses conceitos variam de cultura para cultura, de época para época, sendo possível formar famílias sem que os laços sanguíneos sejam determinantes. Lá atrás, no início da história do homem, o conceito de família não existia, mas homens e mulheres se agrupavam em torno do propósito da sobrevivência e da colaboração, e assim criavam entre si laços fortes de proximidade. Com o surgimento da paternidade e da propriedade privada, surgiu o conceito de clã e depois o de família.

Mudanças foram ocorrendo e a família adquiriu diversas configurações além da conhecida, formada por pai, mãe e filhos. Entretanto, algo se conservou e se conserva nos grupos familiares: a força dos laços e o compromisso com a história do grupo.

Ao longo da história, as formas de casamento mudaram, os papeis de pai, de mãe e o lugar dos filhos passaram por uma enorme mobilidade e, por conseguinte, a família adquiriu significados diferentes. A experiência emocional pessoal, assim como os contextos cultural, social e econômico em que se está inserido impactam sensivelmente a experiência emocional de cada um com respeito ao que tem e quer como família. Por isso cada família constitui sua própria cultura, baseada nos valores, nas crenças e nos padrões de comportamento esperados dos seus membros.

Há aqueles que acreditam que uma boa família aglutina seus membros e todos participam de tudo; que a vida de cada um é compartilhada e, às vezes, comandada por aqueles que são considerados os mais experientes; que onde está um deverão estar todos; que a individualidade é algo bastante questionável e, para algumas famílias, até ameaçadora. Outros vivem uma relação negada com o conflito. Sua família é sempre a melhor, não há conflitos, não há diferenças marcantes, e todos se amam acima de tudo. Há um script escrito desde sua origem e todos devem segui-lo para se sentirem amados e pertencentes ao grupo familiar.

Outras famílias, ainda, querem seus membros por perto, mas há um princípio muito claro de respeito à individualidade, aos caminhos escolhidos. A crença do amor em família não se dá pela proximidade física, mas − e principalmente − pela proximidade subjetiva das emoções; pela capacidade e competência de cada membro de aceitar a existência de conflitos e enfrentá-los quando necessário.

Há famílias que não têm qualquer vínculo de interesse pelos seus membros, a não ser que estejam rezando a cartilha ditada pelo script da sua criação. São famílias em que cada um se vira de acordo com sua vontade e não há qualquer laço de afinidade entre os membros. Nessas famílias é bastante comum se observar o estabelecimento de subfamílias e subgrupos. Uns se juntam com outros, quase sempre guiados por interesses. Há como que pequenos times dentro do grande time, da grande família. É interessante notar que nem sempre os subgrupos se formam por afinidades, mas para adquirir ou exercer um certo poder.

Por fim, há famílias que se caracterizam por competirem afetivamente pelo amor dos pais e depois dos irmãos. Cada um que seja mais “politicamente correto” que o outro. Cada um que se mostre melhor, mais inteligente e mais bonzinho, supondo que assim terá o lugar de privilégio. As chamadas “ovelhas negras” aparecem, nessas famílias, como porta-vozes dos aspectos sombrios pouco assumidos pela maioria dos seus membros − o conhecido “bode expiatório”. Os aspectos pouco conhecidos e indesejados por seus membros são atribuídos aquele denominado de “problemático.” Na verdade o “bode expiatório” presta o serviço de proteger a família do próprio conflito, mas ele nem sempre tem essa consciência.

Toda família tem seus bastidores, seus segredos e seu lado sombrio. Família “Doriana” só existe na propaganda de margarina.

Mas, afinal, o que é uma boa família? Depende de como cada um acredita e se relaciona com sua família. No meu ponto de vista, uma boa família é aquela para onde pode sempre voltar e cujos membros têm prazer em estar juntos. É um lugar de prazer e de conflitos, também… mas, acima de tudo, um lugar de verdade. É onde se é ouvido, respeitado e legitimado como um ser que pertence ao seu grupo de ascendência mas se mantém pessoa individual. Um lugar em que cada um pode viver sua humanidade.

No dia seguinte ao do meu casamento, meu pai e minha mãe foram me levar ao aeroporto, pois eu vinha, de Recife, morar em São Paulo. Quando nos despedíamos, meu pai, muito emocionado, me disse: “Agora você terá sua família, e isso é o que importa. Crie uma boa família. Aqui estaremos para o que precisar”. Ele sabia o que dizia, pois era um imigrante que havia deixado para trás a sua família e o seu país em busca de dias melhores. Sua mãe lhe dissera: “Vá e não olhe para trás”. Os ensinamentos de meu pai sobre a vida e sobre a família, que tão generosamente ele oferecia, ainda ecoam dentro de mim e determinaram muito o modo como concebo a família e a vida em família. Procurei seguir seu conselho e compreendia que acima da minha família de origem estava aquela que seria a minha família e pela qual eu estaria disposta a trabalhar.

Compreendo que a boa família não toma demais o nosso tempo, respeita as diferenças sem tomá-las como desamor, compreende que o crescimento nos possibilita escolhas, às vezes, muito diferentes das dos nossos pais e irmãos.

Excesso de compromissos familiares, obrigatoriedade de afetos, cobranças e a política do “toma lá, da cá” existente em tantas famílias comprometem o amor e o prazer de se estar junto na espontaneidade e da maneira que é possível para cada um. Assim, muitas pessoas preferem não estar em família e elegem como “grupo familiar” outras pessoas que não aquelas com quem têm consanguinidade.

Família é, sim, o melhor lugar do mundo para se estar, desde que todos seus membros sejam considerados importantes dentro do modo de viver de cada um e se aceite que, apesar dos laços sanguíneos, somos diferentes e, nem sempre, teremos afinidades com todos, mas, com certeza, todos serão respeitados.

Infelizmente existe a crença de que, em família, todos devam se amar ou que se deve contar sempre com a família. Essa é uma visão romântica. Amamos algumas pessoas, mas podemos ter como princípio de convivência humana o respeito para com todas as elas. Quanto a contar sempre com a família dependerá muito do quanto, na história de cada família, a amizade e a aceitação foram cultivadas.

Estamos imersos em algo muito maior que nossa família de origem, entretanto é nela, lá na origem, que aprendemos com nossos pais, desde bem pequenos, a construir outras “famílias” por onde passamos a nos respeitar e a colaborar amorosamente para que a convivência seja mais harmônica, participativa e amorosa.

Um abraço

Blenda Marcelletti Oliveira

 

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